A arte de amar o futebol de várzea

Um dia, acho que em junho 2009 ou 2010, fui convidado pelo PH para jogar no Aliança Football, um pequeno time de várzea com tradição nos campos de Porto Alegre e Canoas. Jogar futebol pra mim, sempre foi diferente do que para os demais garotos, com 1 metro e 94 cm de envergadura, me tornei um goleiro de futebol, talvez a escolha mais traiçoeira de toda a minha vida. Nesta época eu tinha acabado de completar 18 anos, já havia jogado alguns campeonatos escolares e pra mim isto se parecia como apenas mais um jogo. Me lembro direitinho dos 45 minutos iniciais de jogo, apesar do zero a zero no placar, o ataque adversário arriscava chutes de todos os lugares do campo, mas para quem já jogou comigo sabe que  chutes a gol não me assustam e sim os malditos cruzamentos e bolas alçadas na área. Ao contrário do colégio, o atacante adversário não terá compaixão ou muito menos pena de você. Estes seres repulsivos denominados atacantes só tem um objetivo, o gol… O meu objetivo era claro também, evitar o gol.

Segundo tempo, 15 minutos de jogo, falta lateral na ponta da área, bola alçada a uns 2 metros e meio de altura, impossível para qualquer adversário encostar nela, como num filme ela parou no ar, esperava pelo contato com minhas luvas. Tenho 1,86 de altura, com um salto de 30 cm me faltariam não mais do que 40 cm de braços esticados para agarrar aquela maldita bola. Porém como já disse, isto aqui é futebol de várzea, o joelho daquele escroto qualquer estava armado como um flecha em minha direção, saltar com o corpo desprotegido e agarrar aquela bola com facilidade não era mais uma opção. Curvo as pernas mais alto do que ele, se alguém se machucar que seja ele, perco preciosos centímetros. A decisão tomada meio segundo atrás, para sair de debaixo dos postes não me parecia mais uma boa ideia… O tempo está passando, cerro os punhos e como num filme de Stallone disparo meus braços contra a bola, antes que pudesse toca-la aquele maldito joelho atinge minhas pernas, perco o equilíbrio e a bola bate em minhas mãos, como uma prostituta traiçoeira a bola acaba indo na direção oposta, contra o meu próprio gol. No mesmo instante olho para o homem de preto com o apito na boca, suas mãos condizem com a violência do lance. Não acredito, no meu primeiro jogo e não fui capaz de agarrar uma bola dessas tão simples. Olho para trás e vejo a bola suavemente tocar o travessão e voltar para o meio da área. Aprendi uma lição 2 segundos atrás e não iria desperdiça-la, salto violentamente e agarro aquela bola, sem chances para que joelho nenhum fosse me atrapalhar.

Final de jogo, ganhamos de 1 x 0, não lembro exatamente como foi o nosso gol. Continuo desde então defendendo as cores do time que me apresentou o futebol de várzea. Ainda tenho certos pesadelos e receios com cruzamentos na área, como alguns amigos me dizem, prefiro um pênalti do que um escanteio. Momentos bons e ruins se passaram durante estes anos, se der medo vai com medo mesmo, por meus amigos, meu time e acima de tudo pelo amor ao futebol de várzea.

Estou fora dos gramados desde outubro do ano passado.

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