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Nico Nicolaiewsky

Cara caralho, junto com Humberto, Nico foi o artista mais emblemático da cidade, de Porto Alegre ninguém era mais interessante do que ele. Às vésperas de comemorar 30 anos de Tangos & Tragédias, Nico recebe o diagnóstico de leucemia e é internado às pressas. O tratamento, no entanto, não é suficiente para retardar o avanço da doença e ele vem a falecer na madrugada do dia 7 de fevereiro de 2014, aos 56 anos. Na manhã seguinte, sua foto na capa jornal era ao mesmo tempo tão bonita mas tão triste. Um pouco melancólico, como uma de suas músicas. Mas é a vida real, e eu ainda queria mais Nico. De suas letras, ainda escuto “gritar para o mundo, eu quero outra chance!!”. Como se já soubesse. Todo mundo tem alguém que não está, todo mundo tem saudade. Dentre as muitas homenagens, Humberto Gessinger foi muito certeiro em seu post no blogessinger:

Quando compus Segura a Onda Dorian Gray, de cara pensei em convidar o Nico para participar da gravação. Ser fã nunca me pareceu, por si só, um motivo razoável para convidar alguém para uma parceria. O que realmente me levou a pensar nele foi sua voz frágil e forte (perdão pelo paradoxo), a sensibilidade fina para o humor melancólico e seu jeito de tocar acordeon. Mesmo num estado onde este é um instrumento central, com milhares de gaiteiros, a gaita do Nico soa muito particular.

O convite foi feito e aceito por email. Numa das mensagens, anexei a letra e uma gravação caseira da canção .

No dia marcado, Nico chegou ao estúdio e, depois de um papo leve e engraçado, tirou o instrumento do estojo e uma cópia da letra do bolso. Antes de começarmos a tocar, ele falou sobre algo que devia estar incomodando-o desde que ouvira Segura a Onda Dorian Gray pela primeira vez. Apontando a palavra caralho num dos versos da letra, disse: “Isso eu não posso cantar”.

Que do caralho! Esse lirismo radical, aparentemente fora de época, era exatamente o que eu queria para o disco, para essa música! Alguém que ainda achasse que caralho é palavrão! Alguém que ainda acreditasse não haver lugar para palavrões em canções de amor!
Afudê!“, exclamei. Era isso mesmo que pedia aquela canção sobre amor eterno e incondicional em tempos que não poupam nem os quinze minutos do Andy Warhol.

Como iríamos cantar estes versos juntos, numa harmonia abolerada, sugeri que eu mantivesse “Caralho, como estou ficando velho” e que ele mudasse para “Cara, como estou ficando velho“.

Não seria, na métrica, a solução mais limpa, mas tinha tudo a ver com o conceito do disco Insular (a crença de que todo artista constrói um mundo próprio com sua arte e a vontade de conectar estas ilhas com pontes que respeitem suas particulariedades).

Nico, pra quem não sabe, é o seguinte: trata-se de um artista de verdade. Numa das passadas que demos na música, ele sacudiu levemente a cabeça com um sorriso igualmente leve (Nico sempre soa leve sem ser leviano) e, sem dizer nada, passou a cantar “caralho“.

Afudê 2! Artistas de verdade não se prendem a esquemas pré-estabelecidos.

Eu já havia gravado violões, baixo e bandolim; a base da canção estava pronta. Nico foi pra sala de gravação e colocou os fones. Dei um play pra ele sacar se o equilíbrio entre os instrumentos estava legal, se a mixagem estava confortável para gravar a gaita.

Dei um stop e perguntei se ele queria ouvir mais clic (o toc-toc-toc que marca o tempo da música). Nico se inclinou em direção aos microfones posicionados para captar as duas mãos do acordeon e disse enfaticamente: “Não! Sou alérgico a metrônomo!”.

Afudê 3! Era isso que a música pedia! Um “não” ao tecnicismo engessado de notas teoricamente perfeitas no tempo mecanicamente exato.

Já com o disco pronto, convidei Nico para participar do show de lançamento em Porto Alegre. Nos reunimos para ensaiar um dia antes. No fim do ensaio, pedi que ele autografasse meu acordeon.

Ele ficou compreensivelmente embaraçado. Reconheço que é um pedido xarope. Mas os encontros proporcionados pelo Insular foram tão bacanas! Eu queria mesmo guardar mais esta lembrança. Minha gaita já tinha a assinatura do Borges e Bebeto havia assinado meu violão.

Nico concordou, mas ficou em dúvida sobre o que escrever. Falei com voz solene que teríamos que levar a gaita a um cartório pra reconhecer firma. Abaixo do nome, sorrindo, ele escreveu: “CNPJ: …..”

Afudê 4! Um grande artista que não se leva muito a sério.
O show aconteceu no auditório Araújo Vianna, onde inúmeras vezes eu havia assistido ao Saracura. A foto abaixo é, literalmente, a última imagem que tenho do Nico (não nos encontramos na balbúrdia pós-show). Ele está sorrindo, no palco, depois de uma canção. Eu, agradecendo. Valeu, Nico!
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Insular – Humberto Gessinger

#INDIETRACKER 10

Insular – Humberto Gessinger

A rua com meu nome
É avenida anonimato
Aquele um, aquele outro
Não tem cão, caça com gato
Um fake com meu nome
Um clone delirante
Mal sabe o coitado
Que um só já é o bastante
Só você sabe quem eu sou
Só você sabe como é

Humberto Gessinger:
Voz, baixo, guitarra de 12 cordas, violão, teclados, harmônica
Rafael Bisogno:
Bateria

Você já viu algum show ao vivo deste gênio? Conte pra nós como foi..

Pra Ser Sincero – 123 Variações Sobre Um Mesmo Tema

Ele cometeu alguns pecados capitais já no primeiro disco, escreveu Fidel e Pinochet na mesma estrofe, o disco bombou e foi hit de novela (você que interprete qual foi o pecado). Um mito, um jovem que me lembra até aquele rapaz latino americano de outras violas, na realidade apenas um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones. Sempre tive curiosidade para entender a complexidade de suas músicas, seja dos tempos de Radar ou de poucas vogais. A todo são 123 canções, motivos, explicações para um mesmo tema: Humberto.

Nós dois a pé na Carlos Gomes, camburão pintou depois
Crepe de banana… Advogados de havana
Não pergunte quem foi Ana nem o que é “Trottoir”

Em 11 de janeiro de 1985, mesmo dia da abertura da primeira edição do Rock in Rio, Humberto Gessinger subia ao palco do auditório da Faculdade de Arquitetura da UFRGS de cabelo new wave e bombacha, para o primeiro show de uma banda que tinha nascido para durar uma noite só. Era para ter se chamado Frumelo & Os 7 Belos, mas ninguém gostou, então resolveram fazer uma brincadeira com os estudantes de Engenharia e os surfistas que frequentavam o bar da universidade, que estava a pelo menos 100 quilômetros do mar. Engenheiros do Hawaii.

Vinte e cinco anos depois dessa estreia, Humberto Gessinger lança neste livro um olhar sobre sua trajetória e revela curiosidades sobre sua carreira. Com fotografias inéditas, informações sobre cada um dos discos e letras comentadas, Pra Ser Sincero é um livro sobre uma banda que era para ter durado uma noite só, mas que acabou escrevendo um capítulo da história do rock brasileiro, mesmo estando longe demais das capitais.

Pra ser sincero, um batia de um livro. São 304 páginas de uma leitura muito rápida e gostosa, Humberto Gessinger conta um pouco da história de suas canções e forma muito descontraída. Vale a pena, fica a dica de leitura para a semana! Comprei na feira do livro de Porto Alegre, 35 pilas!